Muitas pessoas confundem o recurso especial com o recurso extraordinário, achando que são a mesma coisa ou que qualquer processo pode ser levado tanto ao STJ quanto ao STF. Na prática, cada um desses recursos tem uma finalidade bem específica e vai para um tribunal diferente. Este artigo explica de forma clara e direta a diferença entre eles.

A Diferença Básica: Para Onde Vai e Por Quê

A forma mais simples de entender a diferença é pensar no destino e na finalidade de cada recurso:

Recurso Especial → vai para o STJ

Recurso Extraordinário → vai para o STF

Em resumo: se o problema é com a lei, vai para o STJ. Se o problema é com a Constituição, vai para o STF.

Recurso Especial: Quando Usar

Você pode usar o recurso especial quando o tribunal (de segunda instância) decidiu seu caso de forma que:

1. Contrariou ou ignorou uma lei federal Por exemplo, se o tribunal aplicou errado um artigo do Código Civil ou simplesmente não aplicou uma lei que deveria ter aplicado.

2. Validou uma lei municipal/estadual que contraria lei federal Quando um município ou estado cria uma lei sobre assunto que é de competência federal, e o tribunal considerou essa lei válida.

3. Interpretou uma lei federal de forma diferente de outros tribunais Quando há divergência entre tribunais sobre como interpretar a mesma lei. O STJ existe justamente para uniformizar essas interpretações.

Exemplo Prático de Recurso Especial

Imagine que você entrou com uma ação de cobrança e ganhou. O devedor recorreu e o Tribunal de Justiça reformou a sentença, aplicando mal as regras do Código Civil sobre juros. Você pode fazer recurso especial ao STJ dizendo que o tribunal interpretou errado a lei federal (Código Civil).

Recurso Extraordinário: Quando Usar

O recurso extraordinário é cabível quando o tribunal:

1. Contrariou a Constituição Federal A decisão violou algum direito ou princípio constitucional, como o direito de defesa, o devido processo legal, a presunção de inocência, etc.

2. Declarou que uma lei federal ou tratado é inconstitucional O tribunal disse que determinada lei ou tratado contraria a Constituição.

3. Validou lei estadual/municipal contestada em face da Constituição O tribunal considerou constitucional uma lei local que você acha que viola a Constituição.

4. Validou lei local contestada em face de lei federal Questões de conflito entre leis locais e federais quando há aspecto constitucional envolvido.

Exemplo Prático de Recurso Extraordinário

Você foi condenado criminalmente sem ter tido acesso a todas as provas que foram usadas contra você. O tribunal manteve a condenação. Você pode fazer recurso extraordinário ao STF alegando violação ao direito constitucional de ampla defesa e contraditório.

Quadro Comparativo Rápido

AspectoRecurso EspecialRecurso Extraordinário
TribunalSTJ (Superior Tribunal de Justiça)STF (Supremo Tribunal Federal)
FundamentoArt. 105, III, CF/88Art. 102, III, CF/88
MatériaLeis federaisConstituição Federal
ObjetivoUniformizar interpretação de leisProteger a Constituição
Quando usarErro na aplicação de lei federalViolação à Constituição
Requisito especialRelevância da questão federal (futuro)Repercussão geral

O Requisito da Repercussão Geral (Recurso Extraordinário)

Uma diferença importante: para o recurso extraordinário, você precisa demonstrar a repercussão geral da questão. Isso significa provar que o problema não interessa só a você, mas tem relevância para muitas pessoas ou para a sociedade como um todo.

Por exemplo, se a questão constitucional discutida afeta milhares de pessoas na mesma situação, ou envolve interpretação importante sobre direitos fundamentais, há repercussão geral.

O recurso especial terá requisito similar no futuro (relevância da questão federal), mas ainda está aguardando regulamentação.

Posso Fazer os Dois Recursos no Mesmo Processo?

Sim! É perfeitamente possível interpor tanto recurso especial quanto recurso extraordinário no mesmo caso, desde que existam questões de lei federal E questões constitucionais a serem discutidas.

Na prática, isso é comum. O advogado interpõe os dois recursos simultaneamente, cada um discutindo sua matéria específica. Um vai para o STJ e outro para o STF.

Prequestionamento: Requisito Comum aos Dois

Tanto o recurso especial quanto o extraordinário exigem que a questão tenha sido discutida no tribunal de origem. Isso se chama prequestionamento.

Não basta que o assunto estivesse nos autos. É preciso que o tribunal tenha efetivamente se manifestado sobre ele, mesmo que de forma implícita. Se o tribunal foi omisso sobre algum ponto importante, é preciso opor embargos de declaração apontando a omissão antes de recorrer ao STJ ou STF.

O Que Esses Tribunais NÃO Fazem

É importante entender o que STJ e STF não fazem:

Não reavaliam provas – Se você acha que o juiz analisou mal as provas, os tribunais superiores não vão rever isso. A análise de provas é definitiva na segunda instância.

Não são terceira instância – Não servem para “tentar de novo” depois de perder em segunda instância. Só analisam questões de direito (lei ou Constituição).

Não julgam justiça ou injustiça – Avaliam apenas se a lei ou a Constituição foram aplicadas corretamente, não se a decisão foi “justa” no sentido comum da palavra.

E Se Meu Recurso For Negado?

O recurso especial ou extraordinário passa por dois filtros:

  1. Primeiro no tribunal de origem – O presidente do tribunal analisa se o recurso preenche os requisitos. Se negar, você pode fazer agravo.
  2. Depois no STJ/STF – Mesmo que admitido no tribunal de origem, o ministro relator vai analisar novamente todos os requisitos.

Se seu recurso especial for negado definitivamente, você ainda pode tentar o recurso extraordinário (se houver questão constitucional). Mas se ambos forem negados, encerra-se a discussão.

Prazos São os Mesmos

Ambos os recursos têm o mesmo prazo: 15 dias úteis contados da publicação da decisão que você quer recorrer. Não perca esse prazo, pois é fatal e não há como recuperar depois.

Quando Vale a Pena Recorrer aos Tribunais Superiores?

Nem todo caso deve ir ao STJ ou STF. Considere recorrer quando:

✅ Há efetivamente uma questão de lei federal mal aplicada ou questão constitucional relevante ✅ A matéria tem jurisprudência favorável nos tribunais superiores ✅ O valor da causa ou a importância da questão justifica o custo e o tempo ✅ Há chances reais de reverter a decisão (não é apenas “tentar a sorte”)

Lembre-se: recursos aos tribunais superiores são tecnicamente complexos e custosos. A orientação de advogado especializado é fundamental para avaliar se seu caso tem fundamento para chegar ao STJ ou STF.

Considerações Finais

A diferença fundamental é simples de memorizar: STJ cuida de leis federais, STF cuida da Constituição. Cada tribunal tem sua função específica no sistema judiciário brasileiro, e entender isso é o primeiro passo para usar corretamente esses recursos.

Processos que chegam aos tribunais superiores representam pequena parcela de todos os processos judiciais, pois os requisitos são rigorosos e a admissibilidade é seletiva. Mas quando há efetivamente violação à lei federal ou à Constituição, esses recursos são instrumentos essenciais para garantir a justiça.

Se você está em um processo que pode ter questões de lei federal ou constitucional, busque um advogado para orientações personalizadas para o seu caso. A análise técnica especializada é fundamental para identificar se há fundamento para recurso ao STJ ou STF e qual a melhor estratégia a ser adotada.

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